quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ganhar ou perder?



Quem lê o título acima logo pensa em uma competição, rivalidade. Mas, na verdade, a brincadeira proposital me fez neste um ano - completados neste mês – pensar em tudo que ganhei e “perdi” com a corrida. A minha intenção era apenas escrever sobre a Meia Maratona de Buenos Aires. Com o atraso de mais de uma semana, o nosso amigo, corredor e jornalista Arnaldo (de Sousa) tentou me ajudar dizendo que era coisa simples, só fazer um resumo sobre tudo que se passou naquele dia. Então, eu pensei: não dá! Fazer uma descrição pura e simples da prova seria muito pouco. Ninguém entenderia a emoção que eu senti naquele momento se eu não contasse tudo que passei neste um ano para chegar lá. Calma, prometo que será algo bastante breve.

No final do ano passado, eu corri pela primeira vez a São Silvestre e quem se lembra do meu texto sabe que a decepção foi enorme. A verdade é que eu mais faltava aos treinos do que comparecia. E milagres não existem. Em fevereiro deste ano, escrevi outro texto falando que, após o incentivo do técnico Wanderlei de Oliveira, resolvi tirar minhas promessas do papel e me dedicar integralmente a maior paixão: a corrida (pode ser novidade para alguns, mas eu já corria desde a época da faculdade. Claro, que de forma bem mais amadora). E finalizei assim: “Enfim, meu estilo de vida mudou”.

E como mudou...Aprendi a acordar cedo, passei a treinar diariamente (menos aos domingos), abandonei de vez as baladas, consultei uma nutricionista e me acostumei ao vestiário. Brinco, que hoje minha maior satisfação é tomar banho sem chinelos. É incrível como você começa a dar valor às pequenas coisas. É justamente por isso que comecei o texto falando sobre o que ganhei e o que perdi. Naturalmente, eu me afastei de alguns amigos mais noturnos. Sei que eles ainda estão lá, só que os vejo mais esporadicamente. Por outro lado, ganhei inúmeros amigos, professores, mestres e ídolos dentro da corrida.

Além dos treinos, da tática e da superação de tempo a cada prova aqui no Brasil, eu levei a Buenos Aires uma Karine muito mais amadurecida fisicamente e psicologicamente. Antes da largada – nos posicionamos atrás do pelotão de elite, passando por um pequeno espaço entre as grades -, eu disse para mim internamente: “hoje é o seu dia e esta é a sua prova”. A cada quilômetro e olhada no relógio para ver se o ritmo estava encaixado na planilha, era isso que eu repetia. A previsão era de 5:00. Mas, logo no primeiro quilômetro, percebi que 4:50 era um ritmo confortável e fechei aí.

Confesso que no terceiro quilômetro o Paulinho (Paulo Moraes) passou por mim e eu me empolguei um pouco fechando em 4:38. Aí, voltei a mim. Sabia que se eu mantivesse aquilo quebraria logo. Até o décimo mantive os 4:50. Meu pensamento era apertar um pouco após o Km 10 e diminuir se eu tivesse bem depois do 17. Quando entrei na 9 de Julio, vi o pacer de 1h38 passar por mim, mas sem se distanciar muito. Foi aí que eu me toquei o quanto estava bem. Afinal, na minha planilha estava programado para 1:45:29 - e já estaria muito feliz se fizesse esse tempo. Não tive dúvidas, fui mantendo contato visual com a placa e procurei não me afastar muito dele. Até tentei colar nele, mas fiquei receosa de quebrar. Preferi manter o meu ritmo.

Quando cheguei ao Km 20, veio uma espécie de filme na minha cabeça com todas as coisas boas que passei neste último ano ao lado do grupo. Não vou citar nomes porque não quero esquecer de ninguém, nem de cada momento. No U final (perto da Casa Rosada), o Célio (Brito) voltou para me puxar. Na reta final, só escutei ele dizendo: “vai que você vai fechar abaixo de 1h40”. Ele tinha razão. Fechei com 1:39:52 (tempo oficial 1:39:59). Infelizmente, não vou saber descrever em palavras aquele momento. Mas tenho certeza de que todo mundo deve imaginar. Superar-se é a melhor recompensa.

Evoluí muito como corredora (e ainda tenho muita estrada pela frente. Sei que só estou no início), mas cresci muito mais como ser humano. E acho que esse é o grande barato. Por isso, agradeço aos mestres Wanderlei e Mônica e também a cada um do grupo por fazerem parte deste momento tão especial da minha vida. E quem não foi este ano, já sabe: ano que vem tem mais...

Karine César, jornalista e corredora

6 comentários:

Reinaldo disse...

Meus parabéns pela excelente prova e pela evolução pessoal que é bem mais importante.
Continue perseguindo seus sonhos com determinação que eles irão se realizar.

Enzo disse...

Ka, voce realmente mandou muito bem, super parabens!! Tenho voce como meu benchmark, e espero que voce evolua sempre, pois eu estarei sempre tentando chegar antes de voce 8-)
Ta dificil viu?!
bjs
enzo

Vicent Sobrinho disse...

Karine é isso ai! A garra e a elegancia é fator preponderante na busca de objetivos. Na corrida não é diferente. Você é merecedora desses elogios todos pois, é uma garota simples, lutadora e principalmente de uma alegria contagiante. bjs e continue assim!

Edson disse...

Acordar cedo, dormir cedo, não comer tudo que gosta não beber, se afastar de alguns amigos, pagar para correr, etc. e ainda brigar contra o relógio, pode parecer meio estranho, coisa de “maluco”.
Alguns dizem que a corrida vicia, acho que já nasce com a gente, uma espécie de instinto adormecido.
Outros dizem que sonhar em fazer tudo isto melhor a cada dia é coisa de “maluco”, Parabéns você agora é “maluca”. , louca por corridas.
O sol nasce para todos, a sobra para poucos e a corrida para loucos.

Beijão

Edson "maluco"

Francisco Lima Filho disse...

Karine;Eu sou um cara de sorte,quando comecei o Wanderlei falou(vç vai fazer parte do grupo da Karine) e ele tinha razão,vç é guerreira e eu tinha certeza que vç iria fazer um ótimo tempo.Valeu garotinha.Bjs

Francisco Lima Filho-Corredor Run For Life

Anônimo disse...

Karine ñ consigo deixar o forró!!!!
Como vc conseguiu se livrar das noitadas ?

karine. Sucesso nas corridas da vida bjs .